Por Fernanda Lopes
Outro dia, me peguei pensando em Cronos.
Sim, aquele deus velho e carrancudo da mitologia grega, que devorava os próprios filhos. Acho cruel — como qualquer um pensaria —, mas também acho bem simbólico. Porque se a gente parar para pensar, o tempo é isso: uma boca imensa que engole tudo, sem dó nem cerimônia. E, às vezes, o que ele engole é exatamente aquilo que a gente mais ama.
Lembro da minha infância, tão viva na memória e tão impossível de alcançar. Lembro do cheiro de pão saindo do forno da minha avó, das bonecas com cabelos embolados, das tardes em que o tempo parecia dormir comigo no sofá. Hoje, tudo isso vive dentro de mim, mas num cantinho já meio apagado. Cronos passou por ali. Comeu. Mastigou com bastante calma.
Também me lembro dos meus sonhos antigos. Tantos. Tão altos. Achava que teria tempo de sobra para tudo. E, olha só, o tempo passou e pouquíssimo sobrou. De alguns sonhos eu mesma me despedi. De outros, fui largando no caminho sem nem perceber. Quantos foram devorados pelo passar dos dias, pelas dúvidas que se instalaram, pelas “realidades” que chegaram com força? Quantas vezes prometi a mim mesma que ia correr atrás deles, mas deixei o tempo tomar conta e, com a desculpa da rotina, fui engolindo a coragem? E, de repente, percebi que o tempo não só devora o que é velho, mas também consome o que poderia ser novo. Quando foi que troquei meus esboços de futuros por listas de afazeres? Pois é, Cronos também andou por ali, faminto.
E os amores? Ah, também não escapam dessa voracidade. Esses, ele devora com elegância. Primeiro vêm as rotinas, os silêncios, os desencontros. O tempo não precisa gritar para destruir. Ele vai desgastando. Um amor pode se apagar devagarinho, como uma vela esquecida no fim da festa. Você nem vê. Mas, quando percebe, já foi. E o que resta é só a fumaça, aquele cheiro de fim. Cronos se serve bem, quando se trata dos sentimentos. Quantas amizades se foram, quantos amores se transformaram em histórias para contar? O tempo não só devora, mas transforma. Às vezes, sinto que ele é um escultor invisível, que modela tudo e todos, mas que também, silenciosamente, apaga os detalhes mais preciosos.
O mais estranho é que a gente vive como se tivesse controle. Faz listas, marca compromissos, corre contra o relógio. Mas no fundo, no fundo, é ele quem manda. É Cronos quem dita o ritmo. E a gente dança, mesmo sem música. A gente corre, mesmo sem direção.
Quantas vezes você se pegou dizendo “depois eu vejo isso”?
“Outro dia eu ligo.”
“Semana que vem eu tento.”
A gente vive adiando a vida. Como se o tempo fosse paciente. Mas ele não é. Ele tem pressa. Ele mastiga tudo. Ele tem fome.
Às vezes penso se o tempo não seria mais gentil se a gente o tratasse com mais respeito. Se a gente parasse para ouvir o agora. Se olhasse demoradamente nos olhos de quem ama, se tomasse café com calma, se voltasse a escrever bilhetes à mão. Se escutasse mais e falasse menos. Se respirasse fundo antes de sair correndo.
A verdade é que Cronos ainda está por aí. E ele vai continuar eternamente devorando os minutos, as estações, as lembranças. A infância das crianças. Os cabelos escuros que vão ficando brancos. O brilho em nossos olhos.
Mas talvez — só talvez — se a gente conseguir viver com inteireza cada pequeno instante, ele tenha menos o que comer. Talvez ele se canse da nossa intensidade. Da nossa coragem de estar presente. Talvez a questão seja essa: será que não estamos todos esperando demais do tempo? Ou, ao contrário, será que temos nos esquecido de viver intensamente o tempo que temos? Afinal, se o tempo é implacável e devora tudo, não seria nossa tarefa mais importante encontrar as pequenas brechas, os espaços de luz, onde ainda podemos existir, resistir, ser?
E aí, fica a pergunta que não quer calar:
O que você tem feito com o tempo antes que ele te coma também?
Fernanda Lopes, Jornal Choraminhices.



A divindade parece perdida em sua fome colossal parece a forma pelo qual a humanidade desanda preocupada com as Aparências, Fama e Riquezas parece uma agrura do Existir, um possível Devir Fernanda por outro prisma cada detalhe da Mitologia Grega, onde as pessoas ou são deificadas numa Apoteose ou consumidas num Tártaros como um Retrato Refinado final, acabando sendo Julgados numa Balança