Por Fernanda Lopes
Ninguém sabia ao certo de onde vinha a névoa.
Ela não tinha cheiro, não fazia barulho, não vinha com o vento. Apenas aparecia. Espessa, branca, silenciosa. Descia pelas ruas feito véu de noiva, escorria pelos becos, cobria os postes e apagava os passos.
Era sempre depois de alguma tragédia.
Quando um prédio desabava misteriosamente no centro da cidade — dois dias depois, ninguém mais lembrava que ele existiu. Quando o protesto dos professores foi reprimido com gás e cassetete — no domingo seguinte, a praça estava cheia de crianças sorrindo, sem vestígio de dor. Quando um corpo foi encontrado às margens do rio, flutuando entre garrafas e promessas quebradas — a névoa veio, e o rio voltou a ser um espelho limpo. Nenhum jornal noticiou. Nenhum morador comentou.
Era como se a cidade sofresse de uma espécie de “paramnésia urbana”: lembrava-se das flores, dos aplausos, das festas coloridas na avenida — mas esquecia, com exatidão cirúrgica, tudo que manchava a paisagem.
Ao longo dos anos, alguns começaram a desconfiar. Havia lacunas demais nas conversas, buracos nos mapas, fotos com rostos borrados, nomes que não batiam. Mas sempre que alguém tentava puxar o fio da memória, a névoa voltava — e levava também a dúvida.
Os mais velhos sabiam, mas não falavam. Ou talvez tivessem aprendido, por escolha, a não se lembrar.
Os jovens, nas escolas, aprendiam datas com orgulho: a inauguração da nova ponte, a eleição do prefeito, o desfile do aniversário da cidade. Mas ninguém falava das enchentes que, ano após ano, alagavam as periferias, destruindo casas e sonhos; nem das demolições abruptas que expulsavam famílias das suas raízes para abrir espaço a grandes obras; tampouco das demissões em massa que deixavam jovens e adultos sem emprego, sem esperança. Era uma cidade com passado limpo, imaculado, quase inventado.
Dizia-se que era a cidade mais feliz do país.
As pesquisas mostravam 100% de aprovação.
As ruas eram coloridas.
Os jornais, otimistas.
As placas, renovadas.
As cicatrizes, cobertas por névoa.
Um dia, alguém perguntou:
— Mas e aquele hospital antigo? Ficava ali, não ficava?
— Hospital? Ali sempre foi um centro cultural.
— Não… acho que…
Mas a névoa já estava chegando.
Ela se arrastava pela esquina, suave como quem pede silêncio.
E o hospital? Ninguém mais soube dizer.
Talvez nunca tivesse existido.
Talvez fosse só um erro da lembrança.
Um desvio da narrativa.
Uma memória que não servia mais.
E na manhã seguinte, como sempre, o céu estava limpo.
E todos sorriam.
E tudo seguia.
Como se nada tivesse sido apagado.
A cidade parecia feliz. Os sorrisos voltavam, as crianças brincavam nas praças — sem medo, sem mágoa. Mas ninguém sabia explicar o motivo daquela alegria silenciosa, aquela sensação de paz artificial.
Ano após ano, a névoa seguia seu trabalho: apagava as páginas sujas da história, para que ninguém tivesse que encarar as feridas. Erros não eram reparados; apenas esquecidos. Responsabilidades não eram assumidas; simplesmente evaporavam no ar.
Porque, afinal, nada que não se lembra pode ter doído de verdade.



Uma sacada genial do seu texto expande alguns os Horizontes Utópicos de Gadamer em Ricardo Gondim e Ed Rene Kivitz, naturalmente seu texto revela certa agudeza existente no Programa Esquecer ou Apagar, o verbo ingles forget aponta essa dupla funcionalidade, como um lápide ou um Sema que pode desaparecer com o correr do tempo