Por Fernanda Lopes
A cidade respirava o cansaço habitual de fim de tarde. O sol, pálido e lento, parecia observar os transeuntes sem pressa, enquanto o velho relógio da praça central marcava, invariavelmente, cinco horas. A rotina seguia, monótona, previsível. Até que algo perturbou a ordem.
Um dos ponteiros começou a retroceder, lentamente, contra o curso natural do tempo. Inicialmente, os cidadãos riram, atribuindo o fenômeno a um defeito mecânico. Mas para Miguel, sentado em um banco, a estranheza tinha outra dimensão. Cada retrocesso do ponteiro alterava a realidade ao seu redor: palavras proferidas voltavam à boca de quem as dissera; gestos e movimentos recuavam, como se o mundo inteiro estivesse sendo reorganizado contra sua própria lógica.
Ao tentar alertar os adultos, Miguel percebeu a indiferença deles. Seus olhos só captavam o que o sistema, a ordem social, já se recusava a enxergar. Era uma anomalia reservada à sensibilidade dele — talvez à consciência, à percepção da fragilidade do tempo que todos assumiam como linear e imutável.
Quando o relógio marcou novamente cinco horas, a praça mergulhou no silêncio absoluto. O vento parou, as folhas suspenderam-se no ar, as pessoas permaneceram imóveis, presas em gestos congelados. Ao se aproximar do relógio, Miguel viu uma fenda se abrir na base de pedra, revelando uma escada em espiral que descia para as profundezas — um convite silencioso à verdade que se oculta sob a superfície da realidade.
A escada parecia não ter fim. Cada passo quebrava a lógica temporal: os ecos precediam os movimentos, as sombras avançavam antes do corpo. No final, uma sala colossal se revelou, cheia de relógios flutuantes, cada um marcando uma hora diferente, como se o tempo fosse múltiplo e contraditório.
No centro da sala, uma figura encapuzada o aguardava, olhos brilhando com a intensidade fria do conhecimento absoluto.
— O tempo não é uma linha reta — disse a voz, distante e simultaneamente próxima. — É um tecido frágil, sustentado apenas pelas convenções que aceitamos. Você viu o rasgo que poucos percebem.
Miguel sentiu o peso da responsabilidade: a percepção da verdade implicava escolhas. A figura estendeu a mão e completou:
— Agora você deve escolher: voltar e esquecer, ou seguir e nunca mais viver o tempo como os outros. Voltar à ignorância é um alívio; permanecer consciente é carregar o mundo inteiro dentro de si.
Quando Miguel fechou os olhos e os reabriu, estava de volta ao banco da praça. Tudo parecia normal: o vento soprava, o relógio marcava cinco horas, e a rotina seguia seu curso inalterado. Mas ele já não era o mesmo. A percepção do tempo, da causalidade, da ordem social e pessoal, jamais seria linear novamente. A consciência do impossível havia rompido a superfície da realidade e mostrado a fragilidade do que os outros chamavam de normalidade.
O mundo seguia, impassível, e ninguém jamais acreditaria. Mas Miguel sabia que a normalidade era apenas uma convenção — e que a verdade é um fardo que poucos estão dispostos a carregar.



Por mais que alguns possam querer voltar o tempo, ele nunca volta. Não adianta querer apagar e esquecer, isso não acontece. É preciso aprender e seguir, assim podemos colher as coisas boas do saber.
O tempo que vccosegue associar aqui é dimensionado pela Mitologia Grega, com seu Kronos aquele velho rebugento que comia os filhos, e associava a sala de aula, Parabéns Fernanda agora vamos ao tecido do texto de forma exclusiva parece um Conto pois aparenta Jovialidade e um ponto aqui fica registrado o tempo aqui avaliado significa um Kairós na Dinâmica do Texto seguindo um decálogo “Decálogo do Bom Contista” de horácio Quiroga
É tão bom ler algo sobre o tempo, por várias vezes, eu tentei segurar o tempo e não consegui, a única solução que encontrei foi ler e escrever para enganar o tempo, hoje, sou feliz por perceber que ele passa, passe, tempo, mas devagarzinho, hoje, deixo você esperar por mim.