Por Gracy do Nascimento
Ela dorme no mais profundo abismo.
Levada por seus inquisidores, não foi queimada, para que não tivesse a chance de renascer.
Antes, trancafiada, subjugada e esquecida no mais tenebroso abismo.
Quem ousaria resgatá-la?
Soube-se que ela matara sem ao menos arrancar a vida: arrancou almas, deixando um corpo seco sobreviver.
Por onde passou deixou devassidão e desespero.
Todos a viram e se espantaram com sua força; seus olhos como fogo flamejante, fulminavam quem ousasse cruzar seu caminho.
Saiam de perto dela! Não há escutem! Está louca, possuída! Gritavam eles.
E assim, quase em armadilha, ela foi retirada desta existência.
Quem ousará resgatá-la? Quem invocará seu nome? Quem trará o cheiro forte para o seu despertar?
Ela ainda estava lá: adormecida, trancafiada, porém não esquecida…
De longe ouviam-se seus gritos; seu perfume forte atravessava os dois mundos. Seu gemido ecoava entre os véus da existência.
Ela se levantou!
De longe ouviam-se as batidas de suas correntes.
Entre passos firmes e respiração quente, ela vem ressurgindo.
Sozinha, gargalhando, andando e dançando.
Trazendo tochas de fogo para clarear seu caminho.
À medida que se aproxima, tudo ganha luz, força, vitalidade, desejo.
Ela está de volta. Depois de anos no submundo, aniquilada, trancafiada e esquecida.
Ela ressurge!
Suas correntes batem forte no chão, alinhando-se às batidas do meu coração; sua quentura é percebida de longe e aquece meu corpo frio.
Ela traz o fogo, a astúcia, a provocação e a morte.
Está viva, afrontosa, destemida, nua e vulgar.
Ela é a prostituta sagrada!
O convite ao pecado, ao profano, à fúria; a louca, a má, sem pudor, nua, sem desculpas, sem vergonha.
Sua gargalhada anuncia o retorno:
– Prazer, voltei!
Ela sou eu, ela é você!
Gracy do Nascimento, Jornal Choraminhices.


