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Por Fernanda Lopes A cidade respirava o cansaço habitual de fim de tarde. O sol, pálido e lento, parecia observar os transeuntes sem pressa, enquanto o velho relógio da praça central marcava, invariavelmente, cinco horas. A rotina seguia, monótona, previsível. Até que algo perturbou a ordem. Um dos ponteiros começou a retroceder, lentamente, c...
Por Fernanda Lopes Outro dia, alguém me disse — com aquele tom disfarçado de julgamento — que eu não tinha muita moral para falar sobre determinado assunto. E tudo porque, num passado nem tão distante, mantive amizade com uma pessoa que fez escolhas bem duvidosas. Dava a entender que minha antiga proximidade com ela era […]
Por Fernanda Lopes Ninguém sabia ao certo de onde vinha a névoa. Ela não tinha cheiro, não fazia barulho, não vinha com o vento. Apenas aparecia. Espessa, branca, silenciosa. Descia pelas ruas feito véu de noiva, escorria pelos becos, cobria os postes e apagava os passos. Era sempre depois de alguma tragédia. Quando um prédio […]...
Por Fernanda Lopes Outro dia, me peguei pensando em Cronos. Sim, aquele deus velho e carrancudo da mitologia grega, que devorava os próprios filhos. Acho cruel — como qualquer um pensaria —, mas também acho bem simbólico. Porque se a gente parar para pensar, o tempo é isso: uma boca imensa que engole tudo, sem […]
Por Fernanda Lopes Dizem que, quando amamos alguém, entregamos metade da alma. Que é como um contrato silencioso: metade minha, metade sua, e o amor se equilibra assim. Eu ouvi isso tantas vezes. E, por um tempo, acreditei mesmo nessa ideia bonita de que o amor se constrói devagar, um tijolinho de cada vez, com […]
Por Fernanda Lopes Há algo de profundamente verdadeiro — ainda que incômodo — na lógica antiga que regia o mundo grego: a ideia de que os atos humanos não morrem com seus autores. Eles ecoam. Eles permanecem. Eles se infiltram no tempo e moldam o destino dos que ainda virão. Pode parecer cruel, e talvez […]
Por Fernanda Lopes A expressão “meu Deus!” não sai da boca por convocação celestial. Sai porque a língua é caprichosa, feita de repetições, hábitos, fórmulas prontas. A gente aprende “Deus me livre!” antes mesmo de entender o que é “livre” — quanto mais “Deus”. Verdade seja dita, a língua nos amarrou essa corda no pescoço […]...
Por Fernanda Lopes Ah, o maravilhoso hábito de lavar a louça imediatamente depois de comer. Parece simples, mas quem teve o prazer de viver em uma república sabe: isso faz parte da sobrevivência. Quase quatro anos dividindo a cozinha com uma galera e, quando vi, eu já estava nesse ritmo acelerado de pegar o prato, […]
Por Fernanda Lopes Outro dia, voltando do trabalho, parei no sinal vermelho e vi um passarinho bicando uma casquinha de pão no chão da calçada. Ninguém prestava atenção nele, só eu — ou melhor, eu e um cachorro que passou e espantou o coitado. E naquele segundo, pensei: a vida do bicho é simples. Ele […]
Por Fernanda Lopes Outro dia, no meio de uma correção de redações, parei. Caneta na mão, caderno aberto, mas a cabeça longe. O que eu estava fazendo ali? Corrigindo mais um texto de um aluno que não sabe, de fato, o que está fazendo. E não por preguiça. Nem sempre por falta de interesse. Mas […]
Por Fernanda Lopes É curioso como a mesma situação pode parecer tão diferente dependendo do lugar e do olhar. Dias atrás, escrevi uma crônica celebrando como a escola parecia ter reencontrado sua essência após a proibição dos celulares: as crianças voltaram a brincar, a conversar, a ocupar os espaços com mais leveza e espontaneidade. Mas [&hel...
Por Fernanda Lopes Eu não me esqueço da sensação que tive quando terminei de ler Monster, de Naoki Urasawa. Fechei o último volume com um nó na garganta e um pensamento inquietante martelando na cabeça: todas as vidas realmente têm o mesmo valor? A resposta que eu queria dar era “sim, claro”. Mas a resposta […]
Por Fernanda Lopes Era uma vez um tempo em que a cultura chegava até nós de forma quase artesanal. Minha mãe me dava livros que tinham marcado a adolescência dela, o professor de português insistia que havia uma ordem natural para se ler os clássicos, e minha tia, entre um café e outro, soltava frases […]