Por Gracy do Nascimento
Primeiro, um gemido vindo da alma,
um sussurro ferido abrindo rachaduras no ar.
Depois, pequenos clarões,
como relâmpagos testando o próprio brilho.
Até que o trovão nasceu inteiro,
anunciando a tempestade:
Ela gritou!
Gritou por ela
e por todas as que aprenderam a se calar.
Gritou pela avó quase muda e tão corcunda,
que se envergou de tanto aguentar,
de tanto carregar nos ombros largos
as dores que não eram só dela,
mas de todas as mulheres da família.
E nós ainda temos essa corcunda herdada,
essa memória curva do que suportamos
por gerações.
Ela gritou pelas Marias,
pelas Rosas,
pelas Carmens,
pelas Nenas,
pelas Nazarés,
por todas as mulheres que viraram silêncio
quando queriam ser tempestade.
E quando ela gritou, fez-se luz.
A luz do renascer,
do pertencer,
da identidade que enfim se ergue.
Luz que impõe limite,
que traça fronteiras sagradas.
A placa explícita do NÃO:
Não me toque.
Não me perturbe.
Não me agrida.
Eu sou luz e proteção.
Eu sou a voz das que vieram antes.
Não mexa comigo.
Não mexa mais com elas.
Gracy do Nascimento, Jornal Choraminhices.


